A teologia da libertação é uma combinação da filosofia marxista com certos motivos bíblicos. Ela argumenta que devemos reconstruir o todo da teologia cristã ao vê-la através do “eixo do opressor e do oprimido”.
Resumo
A teologia da libertação desenvolveu-se na década de 1960 para defender a libertação de vários grupos — principalmente pobres, negros e mulheres — da servidão econômica e política. Para esses teólogos, não é suficiente apoiar os oprimidos; é necessário estar comprometido com movimentos sociais, até mesmo revoluções, dedicadas a subverter as estruturas da sociedade. Para esse propósito, os teólogos da libertação adotam o marxismo como uma “ferramenta analítica”, com a qual realizam revisões radicais de toda doutrina cristã tradicional.
A teologia da libertação tornou-se bastante difundida na segunda metade do século XX. Para ilustrar: Contemporary American Theologies, de Deane W. Ferm1 contém oito capítulos, cinco dos quais discutem posições teológicas atualmente em voga. Desses cinco, um trata de “teologia evangélica”, um de teologia Católica Romana e três são diversas formas de teologia da libertação: latino-americana, negra e feminista. Slogans, conceitos e argumentos de teólogos da libertação têm aparecido também em teologias católicas romanas e evangélicas, e tem havido muita afinidade entre a teologia da libertação e outros pensadores, particularmente Jürgen Moltmann, Wolfhart Pannenberg e teólogos do Processo como John Cobb e Schubert Ogden.
Como indica Ferm, a teologia da libertação tornou-se um nome geral para diversos movimentos distintos: latino-americano, afro-americano e feminista.2 Entre os pensadores latino-americanos incluem-se Rubem Alves, Gustavo Gutiérrez, Hugo Assmann, José Miranda, Juan Luis Segundo, Jon Sobrino, Leonardo Boff e José Míguez-Bonino. James Cone é considerado o fundador da “teologia negra”, com outros autores como Albert B. Cleage, J. Deotis Roberts, Major J. Jones e W. R. Jones.3 As escritoras da teologia feminista incluem Mary Daly, Rosemary Reuther, Letty Russell, Sheila Collins, Penelope Washbourn, Elizabeth Johnson, Letha Scanzoni, Virginia Mollenkott e Helen Longino. Concentrar-me-ei, nesta discussão, na forma latino-americana da teologia da libertação e, em particular, em A Theology of Liberation, de Gustavo Gutiérrez, considerado por muitos o principal texto do movimento.4
A teologia de Gutiérrez (1928–) trata primariamente das relações entre ricos e pobres. A teologia negra, naturalmente, concentra-se mais na raça, e o feminismo mais no gênero. Mas, para todos esses grupos, trata-se de relações entre um grupo considerado opressor e outro considerado oprimido. Eles argumentam que a Bíblia deve ser lida a partir da perspectiva dos oprimidos.
A teologia da libertação concorda com Bultmann que uma exegese sem pressupostos não é possível. Especificamente, os libertacionistas concentram-se em pressupostos derivados da condição socioeconômica, racial e de gênero do exegeta. A Bíblia parece diferente para o pobre e para o rico, para o negro e para o branco, para a mulher e para o homem. Aqueles que são relativamente prósperos frequentemente deixam de notar o que a Bíblia diz acerca da pobreza. Portanto, não existe exegese social, racial, econômica ou politicamente neutra. Não devemos pressupor, por exemplo, que a teologia europeia ou norte-americana forneça categorias adequadas para a teologia no terceiro mundo.
A compreensão da Escritura, para os libertacionistas, pressupõe não apenas ideias, mas envolvimento prático — “práxis”, como eles dizem. Precisamos de contato, de experiência com a realidade, se quisermos pensar corretamente sobre ela. Assim, a própria verdade é algo prático, pois a teoria é parte da prática. Ela é um evento, algo que acontece.5 Conhecer a Deus é praticar a justiça (Jr 22.16).6 A práxis é o único meio pelo qual a verdade pode ser verificada: ideias para melhoria social devem ser julgadas por como funcionam de fato.7
Ainda mais especificamente, os libertacionistas enfatizam que devemos estar envolvidos em ação sociopolítica se quisermos compreender corretamente as Escrituras. Cristo deve ser ouvido em todas as áreas da vida, e aqui também a neutralidade é impossível. Todos já possuem alguma agenda social. A única questão é qual será. Mas a ação sociopolítica é, dizem eles, necessariamente “conflituosa”8 em seu caráter. Pois os interesses dos pobres e dos ricos inevitavelmente entram em conflito.9 Nessa questão, devemos escolher lados.
Gutiérrez considera a objeção de que tal militância é incompatível com o ensino bíblico de que devemos amar nossos inimigos. Ele responde que o combate contra os inimigos não envolve necessariamente ódio. Pode ser para o bem do inimigo. Em todo caso, não se pode amar os inimigos antes de identificá-los como inimigos. Uma conciliação barata não ajuda ninguém.
Assim, Gutiérrez insiste que toda a teologia deve orientar-se a partir do “eixo” da opressão e da libertação. Na Bíblia, tal ênfase se concentrará no êxodo, na libertação do povo de Deus da escravidão, e nas leis e nos profetas que conclamam Israel a ter compaixão pelos pobres. A redenção de Jesus é um segundo êxodo, no qual Deus novamente abate os soberbos e exalta os humildes.
Gutiérrez afirma que o marxismo apresenta a melhor análise do conflito opressão/libertação em termos de luta de classes. Assim, o teólogo da libertação deve estar comprometido com o marxismo, pelo menos como uma “ferramenta analítica”,10 no máximo com a revolução socialista como tal. Desse modo, a teologia é a reflexão crítica sobre a práxis, a partir de dentro da práxis.
Seu objetivo último é o de Marx: não compreender o mundo, mas transformá-lo. Particularmente, seu objetivo não é proteger e defender uma tradição. O teólogo deve aventurar-se além dos modelos históricos tradicionais, fazendo uso da análise sociológica para compreender as culturas que busca transformar.
Mas, acima de tudo, o teólogo deve estar envolvido nos conflitos sociais de seu tempo. Ele não deve buscar “permissão” teológica para esse envolvimento. Antes, o envolvimento é o pressuposto da própria teologia. Hugo Assmann afirma que o compromisso com a revolução é independente e anterior a qualquer fundamentação teológica. Em meu juízo, isso é errado. Limita o alcance da Palavra de Deus, proibindo-a de julgar se uma revolução é legítima.
A teologia da libertação toma emprestados muitos conceitos e muita retórica da “teologia da secularização” (como em Jürgen Moltmann e Harvey Cox). Gutiérrez diz que devemos aceitar o desenvolvimento moderno rumo à secularização.11 Ele coincide com uma visão cristã do homem: que a redenção nos torna mais plenamente humanos. E afirma a criação como algo distinto de Deus, e o homem como seu senhor. Assim, diz ele, a igreja deve ser compreendida em termos do mundo, a religião em termos do profano, e não o contrário. A igreja não deve tentar usar o mundo para seus próprios fins, mas deve ser serva.
Assim, a história é una. Não há distinção última entre o profano e o sagrado.12 A criação é um ato salvífico, e a libertação política (como no êxodo) é um ato autocriativo. A salvação é recriação, cumprimento, no qual o homem é um participante ativo, em resposta à graça. A encarnação de Cristo ressalta a sacralidade do profano (189–94).
Gutiérrez segue o argumento de Moltmann de que a teologia deve ser “orientada para o futuro”,13 mas atribui mais importância do que Moltmann à situação presente, citando exemplos bíblicos e históricos. Há um “já”, assim como um “ainda não”. Ele diz:
A esperança que vence a morte deve estar enraizada no coração da práxis histórica; se essa esperança não toma forma no presente para conduzi-lo adiante, ela será apenas uma evasão, uma ilusão futurista. Deve-se ter extremo cuidado para não substituir um cristianismo do Além [como em Barth e Bultmann — J. F.] por um cristianismo do Futuro; se o primeiro tendia a esquecer o mundo, o segundo corre o risco de negligenciar um presente miserável e injusto e a luta pela libertação.14
Agora resumirei como Gutiérrez trata os loci teológicos tradicionais. Em sua doutrina de Deus, ele afirma a transcendência e a imanência de Deus, mas em ambos os casos com um acento libertacionista: Deus é transcendente, pois o Primeiro Mandamento traz juízo contra todos os falsos deuses,incluindo aquelas formas de cristianismo que aceitam a injustiça. Ele é imanente na medida em que age na história para libertar os oprimidos,15 e existe continuamente em e com a humanidade.16 Sua presença é universal: nos gentios assim como nos judeus, e nos não cristãos assim como nos cristãos. Particularmente, ele habita no “próximo”,17 que inclui todas as pessoas. Para estarmos unidos a Deus, devemos ser “convertidos ao próximo”, e vice-versa.18
Gutiérrez afirma que, dentro da natureza humana, há uma abertura infinita para Deus.19 Assim, não há antagonismo entre o natural e o sobrenatural. Por causa da “vontade salvífica infinita” de Deus, todos são afetados pela graça e chamados eficazmente à comunhão com Deus. Todos estão em Cristo.20 Assim, as fronteiras entre igreja e mundo são fluidas. “Alguns até perguntam se realmente são duas coisas diferentes…”21 Assim, a participação na libertação é uma obra salvífica. O pecado é um voltar-se egoísta para si mesmo, recusando-se a amar o próximo e, portanto, a amar a Deus.22 Em última análise, o homem é, portanto, a fonte da pobreza, da injustiça e da opressão, tanto individualmente quanto por meio das “estruturas” da sociedade coletiva. O pecado individual e o corporativo alimentam-se mutuamente. Em uma nota de rodapé, Gutiérrez menciona a correlação feita por Marx entre propriedade privada e pecado. Por causa da propriedade privada, na visão de Marx, o trabalhador é alienado do fruto de seu trabalho. Gutiérrez, contudo, adverte-nos contra “superestimar” a importância dessa correlação.23
A maioria dos libertacionistas aceita a história bíblica em seus contornos principais, embora haja entre eles alguns céticos, como Leonardo Boff. Eles não dão, contudo, muita ênfase aos milagres, à expiação e à ressurreição de Cristo, exceto, como Moltmann, como incentivos para esperar que Deus opere surpresas no futuro.
Os teólogos da libertação dedicam considerável energia à questão de por que o próprio Jesus não se envolveu em ação política durante seu ministério terreno. Gutiérrez observa que Jesus tinha amigos entre os revolucionários zelotes.24 Ele concordava com eles quanto à iminente vinda do reino, quanto ao seu papel nele e quanto à tomada desse reino por homens violentos (Mt 11.12). Contudo, Jesus manteve distância deles, porque: (1) Sua missão era universal, não um nacionalismo estreito. (2) Sua atitude em relação à lei era diferente da dos zelotes. (3) Ele via a vinda do reino como um dom de Deus, não como resultado do esforço humano. (4) Ele via a raiz dos problemas políticos na falta de fraternidade. (5) Ele respeitava a autonomia da ação política. Assim, diz Gutiérrez, a revolução de Jesus era mais radical do que a dos zelotes. Sua mensagem é dirigida ao coração, e é a mudança do coração que melhor conduz à mudança estrutural. A graça salvadora, portanto, destrói a raiz dos problemas da sociedade. Mas todas as tentativas humanas de superar a opressão também se opõem ao egoísmo e ao pecado e, portanto, são libertadoras. Assim, novamente, o sagrado e o secular trabalham juntos.
A Igreja é o “sacramento universal da salvação”25, uma comunidade orientada para o futuro prometido pelo Senhor. Ela deve estar preocupada com o mundo, e não consigo mesma. De fato, como parte do mundo, deve ser habitada e evangelizada pelo mundo. Assim, ela revela a verdadeira natureza do mundo como estando em Cristo.
Como Moltmann, Gutiérrez se opõe ao “modelo constantiniano” e prefere o conceito de teologia secular, segundo o qual a igreja existe para servir ao mundo e deve tomar sua agenda do mundo. Assim, a igreja deve ser mobilizada para combater a pobreza. Ele está convencido de que o capitalismo não é solução para a pobreza da América Latina e de que os cristãos devem incentivar suas sociedades a seguir um caminho socialista.26 O estabelecimento do socialismo pode exigir violência. Mas Gutiérrez insiste que a opressão econômica é ela própria o resultado da violência, de modo que a remoção dessa opressão pode justificar a “contraviolência”.27
Como muitos movimentos filosóficos e teológicos, a teologia da libertação comete erros sérios no início de seu processo de pensamento (epistemologia) que contaminam tudo o mais que ela diz. Os libertacionistas exigem que o compromisso com a revolução marxista seja o pressuposto da tarefa teológica, de modo que não requer nenhuma “permissão teológica”. Assim, a Palavra de Deus é silenciada nos princípios centrais da teologia da libertação, justamente onde deveria falar mais alto.
Não obstante (penso, de modo inconsistente), os libertacionistas oferecem muitos insights sobre a ética bíblica social e individual. Deus de fato se importa especialmente com os pobres, e aqueles que desprezam os pobres sofrerão juízo especial. Mas os libertacionistas, ao pressuporem o marxismo, afastam-se de uma discussão séria sobre a melhor maneira de ajudar aqueles presos na pobreza, restando apenas a violência como meio de resolver a questão. O fato de tantos cristãos terem caído nessa armadilha é uma parte significativa da tragédia da igreja na América Latina. E aqueles libertacionistas que se preocupam com a condição das mulheres ou dos afro-americanos devem precaver-se contra incentivar resultados semelhantes.
Nota: Este ensaio é uma revisão de um capítulo de John Frame em A History of Western Philosophy and Theology (Phillipsburg, NJ: P&R, 2015), 423–429.
Referências
- San Francisco: Harper and Row, 1990. ↩︎
- A teologia Minjung da Coreia possui alguma afinidade com a teologia da libertação, mas também algumas diferenças. ↩︎
- Neste ponto da história, não devemos ignorar o Rev. Jeremiah Wright, pastor por muitos anos do presidente Barack Obama e de sua família na Trinity United Church of Christ, em Chicago. Os sermões de Wright tornaram-se controversos na campanha de 2008, levando os Obama a deixarem a membresia da igreja. Wright explicou seus sermões citando a “teologia negra” de James Cone. ↩︎
- Maryknoll, N. Y.: Orbis Books, 1973. ↩︎
- Note-se aqui ressonâncias da teologia ativista de Barth e, antes disso, das epistemologias pragmatistas de Charles Peirce e William James. ↩︎
- Tenho alguma simpatia pelas teologias da libertação até este ponto. Compare minha teoria triperspectival do conhecimento e da verdade em DKG. ↩︎
- Críticos da teologia da libertação têm questionado se os libertacionistas têm sido sérios em estudar os “efeitos” de suas políticas. Esses críticos apontaram que as ideias marxistas-socialistas defendidas pelos libertacionistas levaram à pobreza e à tirania em muitas partes do mundo, enquanto as nações mais prósperas seguiram políticas capitalistas opostas ao socialismo. ↩︎
- Esta palavra parece ocorrer quase exclusivamente em contextos que tratam de Marx ou da teologia da libertação. ↩︎
- Esta é, naturalmente, uma pressuposição marxista. Ao contrário, creio que é possível que uma ordem social justa e piedosa melhore a prosperidade de todos. ↩︎
- Aqui Gutiérrez escolhe suas palavras cuidadosamente. Ele é católico romano, e o marxismo, como ideologia, foi condenado pelo Vaticano. Ao longo da história da teologia da libertação, houve conflitos entre os teólogos e os bispos, incluindo o Papa. Pessoalmente, não compreendo a diferença entre ser marxista e usar o marxismo como ferramenta analítica. Mas Gutiérrez evidentemente escolhe essa expressão para indicar algo menos do que um compromisso total com a filosofia marxista. ↩︎
- Gutiérrez, A Theology of Liberation, 66–68. ↩︎
- Ibid., 153–160. ↩︎
- Ibid., 14–15, 160–168, 213–220. ↩︎
- Ibid., 218. Na p. 241, nota 33, Gutiérrez afirma que Moltmann está se aproximando de uma posição libertacionista. ↩︎
- Como Moltmann, ele toma o nome Yahweh como “Eu serei o que serei” — não um ser ahistórico, mas uma força em nosso futuro, pronta para agir em poder (Ibid., 165). ↩︎
- Ibid., 189–212. ↩︎
- Ibid., 194–203. ↩︎
- Ibid., 207. ↩︎
- Ibid., 69. Cf. 149–152. ↩︎
- Aqui Gutiérrez vai um pouco além dos pensamentos de Karl Rahner acerca dos “cristãos anônimos” que são salvos, mas fora da Igreja Católica. Gutiérrez é claramente universalista. ↩︎
- Liberation, 72. Cf. 258. ↩︎
- Ibid., 36–37. ↩︎
- Ibid., 187, nota de rodapé 98. ↩︎
- Ibid., 226–227. ↩︎
- Ibid., 258–262. ↩︎
- Ibid., 111–113. Discordo da teoria e do programa socialistas. O capitalismo não é perfeito, mas fez mais para combater a pobreza do que qualquer outro sistema econômico. A Escritura endossa o princípio da propriedade privada no oitavo mandamento, ao mesmo tempo em que exorta o povo de Deus a lidar generosamente com as necessidades dos pobres. Para maior discussão, veja minha Doctrine of the Christian Life (Phillipsburg, NJ: P&R Publishers, 2008), 796–829. Contudo, a cada ano surgem mais provas da inconsistência econômica do socialismo e de sua ligação com a tirania governamental e a luta de classes. Considero difícil levar a sério a fala libertacionista sobre “humanização” como objetivo do socialismo. ↩︎
- Ibid., 22, 88–92, 108. ↩︎
Nota do editor
Tradução para a língua portuguesa do ensaio Liberation Theology, de John M. Frame, publicado originalmente por The Gospel Coalition. A tradução foi realizada pelo Seminário Teológico Nascido de Novo. Não foram realizadas alterações de conteúdo em relação ao texto original.
Publicação original: FRAME, John M. Liberation Theology. The Gospel Coalition. Disponível em: https://www.thegospelcoalition.org/essay/liberation-theology/. Acesso em: 10 de outubro de 2026.
Licença: Esta tradução é disponibilizada sob a licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional (CC BY-SA 4.0). A reutilização e a distribuição desta tradução devem observar os termos da referida licença.







